segunda-feira, 14 de novembro de 2011

hiato II

gaveta fechada
permanece
muda




poesia
presa do espaço
no tempo estancado

sábado, 24 de setembro de 2011

cheiros e outras memórias

pela mão
a manga do pé
escorre melado verão

sábado, 20 de agosto de 2011

natural blues

e se esse som
for só um s
soando sem eco

e se isso
for um soco

dos ocos que ouço

e se isso
ainda é pouco

e se for um grito
de um louco

e se isso
for só isso

e só isso
for tudo

quinta-feira, 26 de maio de 2011

lobotomia

matar a palavra
matar

a pau
o fogo
a fome
[qualquer que
seja o nome]

matar a palavra
matar

o fogo
a fome
a fogo
a ferro
a mão

matar a palavra
a não

segunda-feira, 25 de abril de 2011

latência

como um azul
de céu
no oeste

repousa blusa
-nuvem no armário]

calada de lã
guarda na ausência
- do corpo]

o afago
o abraço
o afeto







(Para o vô Tônico, que não cansa de fazer saudades)




terça-feira, 22 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

deriva

ter
remotos
sent ime ntos
a tormenta

quinta-feira, 10 de março de 2011

vendaval

foi um
feito
de fato

a vida
dois em um
ato

fez-se foice
vento
sem tato

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

cada palavra

calo no sapato
galo na cabeça

gata em teto
de zinco quente

bolhas nos pés

eu me calo

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

dália

pétalas abrem
vermelhas
fendas

sem túnel
luz por fim
profunda

entre nós
há no sim
a sina

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

anacronismo


entram
os olhos
*
a casa velha
com vida

domingo, 9 de janeiro de 2011

anônimo

quatro
pés plantados

noção
sem nem
mas
nem por que

chão
vazio de céu

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

olfato

sufoca
esse cheiro
de bicho
que me persegue

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

fogo-fátuo

tanto em pouco
na pele o tato
fixa a fogo
o fato

domingo, 14 de novembro de 2010

aluar

filha
da lírica
ungida de mel
laura
lua
descida do céu

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

memórias do corpo

entre
a porta
[reaberta]
e a escada
passos surdos
ainda sobem
paredes

sábado, 25 de setembro de 2010

retornos

depois dela parece que também nasci. de boneca nas mãos, voltei a ter medo do escuro.

sábado, 18 de setembro de 2010

lullaby

de nota em nota pinga,
pinica o piano.
de nota em nota volta,
alisa o piano.
de nota em nota valsa,
adormece o piano.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Passarinho 23

vinha sim,
avoado,
botou o vinho
e foi-se

terça-feira, 13 de julho de 2010

mais real que a ficção II


veio assim mesmo, de surpresa. não fosse assim, não viria. corajosa, chegou e acendeu as luzes no escuro do ninho.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

mais real que a ficção

a verdade sorri no segredo dos sonhos. mais próxima do que se imagina.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Luzes

Esse serzinho de olhos tão indagadores parece que sempre esteve aqui do lado. Enxergam por dentro esses olhos brilhantes de adaga.


Hoje minha fadinha banguela faz 4 meses.

domingo, 4 de abril de 2010

L., a filha de A.

Não adianta negar. Olhinhos castanhos no escuro, na ânsia de ver, arregalam a verdade. Ver o mundo curioso, ainda que tão imperfeito.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Canções de me ninar

Lua aluada

Minha princesinha
Presente da Lua
Numa noite bela
Entrou pela janela
***
Mamãe bem queria
Uma menininha
Mas não esperava
Que fosse lindinha
***
Foi pela janela
Que mamãe olhou
Pela Lua Bela
Então se apaixonou

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

memórias de nuvens

um pássaro no ninho
um coelho
um novelo
um pintinho
um camelo
uma ovelha
um ursinho
uma orelha
(De volta o pintinho)
uma mãe
um anseio
uma filha
um passeio
na tarde a caminho




(da gaveta dundes, 2005)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Laura

já há nela
o doce dos dias
e aura da lua



(Minha passarinha nasceu. Florzinha delicada que agora rego e cultivo com amor de leoa)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

.


sábado, 26 de setembro de 2009

caixa de costura


entre as linhas, o botão
as agulhas e alfinetes.
na espera do verão,
arremedo primaveras.

sábado, 12 de setembro de 2009

voos e voltas

Num dia etílico, volta à tona . Volta a vez, a voz, a tez, a liríca engasgada. Um dia tudo passa. E a vida, cor-de-rosa partida, volta a ser amarelinha.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Mémorias de passarinho

Voou de volta. Ficou, no ninho quente, o ovo e um cheiro de amora.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

maninho

além da forma, ele recupera o doce gosto da escrita.

domingo, 30 de agosto de 2009

embaraço

no laço
não há
um fim

há o início
dois fios
um nós

domingo, 26 de julho de 2009

verde musgo

O bolor sobe pelas paredes. As superfícies frias suam. Pela nesga da cortina, o dia cinza sorri um irônico “boa noite”.


domingo, 21 de junho de 2009

A., filha de Antonia


Em meio aos fogos e gritos de vitória, calou-se. Resistira o quanto pôde. Sem choro e sem berro, já sem fôlego, a ferro frio, veio à luz. O ninho morno e escuro agora lhe expulsava. Aquela era a hora. Vida ou morte? Não houve escolha. Na marra, trouxeram-na ao mundo. No início da noite mais longa do ano, compulsoriamente, a vida se fez sina.

domingo, 14 de junho de 2009

A., filha de Pura


Foi moça, ainda criança. Aos dezoito, a primeira boneca chorava, de verdade. Talvez por isso, aos cinquenta, carrega nos traços um jeito de menina. Destemperada e nervosa. Na brevidade de um relâmpago, vai da doçura à rudeza. A Pura, que lhe pariu Antonia, partiu. Deixou-a no colo de outra, também latina. Serviu e contida, da mãe herdou a pureza da culpa e o legado de só ser se sofrida. Sem afagos, pulou, na amarelinha, as casas da infância. Mas hoje, com as forças rudes que lhe expeliram do ventre de Pura, agarra a vida a unha, como os brinquedos que não lhe deram.

domingo, 7 de junho de 2009

miragem parada
janela muda
de luz

sábado, 6 de junho de 2009

da janela da Lu: "here comes the sun again"




(byanA)


flores e brincadeiras
crianças soltas
sob as sombras das bananeiras

domingo, 31 de maio de 2009

sinfonia do sim


A moeda que girava quase invisível, agora tilinta no ladrilho liso e traz de volta os sons dos nossos risos infantis. Os dedos desse piano imaginário insistem, invadem os ouvidos e lembram o delírio delicado de adentrar um outro, o espaço vazio. A máquina vibra, derrama um rio de sons: locomotiva de ruídos repetidos. Na cadência incontida, busca o imenso e o perdido do outro lado de tudo. E esse batucar incessante de chuva no telhado, esse zumbido de abelha, o bater de asas, o rolar das garrafas, o farfalhar dessas folhas, a revolta das árvores amarradas ao chão sucumbem ao silêncio. As notas que escorregam de um violino remoto dançam nas curvas dissonantes do vento que sacode as janelas. As portas da memória rangem, abrem o corredor para as vozes que escapam nos gemidos de um tango esquecido. E os tambores, os mais surdos, ecoam de longe os sons ancestrais que não se entendem mais. Nas esteiras da paisagem, as nuvens se deixam levar pela gravidade desse cello anunciando tempestade. A luz precede o estampido. Disso dista, cada vez mais e mais, o dom de dizer. A palavra lavra cada vez menos. Emudece diante da capacidade que só o silêncio tem de dizer o incomensurável desconhecido.

sábado, 23 de maio de 2009

Iracema

(byanA)

Iracema calou. Cansou de arrastar os chinelos. Olhinhos miúdos cegavam, mas viam além, no milharal inventado, na mulher e suas duas crianças. Brincantes imaginários lhe acompanhavam no corredor do delírio. De pés desatentos pisavam juntos os dias de luz limitada. Pelo orifício de ver o mundo, estreitava-se a razão. Ampliava-se o juízo de só ver o que fazia sentido. Pouco fazia. Restava-lhe o tato. O corpo caloroso, no exercício de ser colo, esfriou aos poucos, amiudou-se. Encolheu para caber nos braços de quem viesse mais de alma que de corpo. Iracema calou. Levou junto o bailar arrastado, de passo curto e ligeiro. Foi sozinha e valente. Antes, insistiu em apagar a luz. A luz, já há tanto ausente, veio de véspera. Com as mãos débeis, Iracema acenou pela janela um adeus à derradeira manhã. Foi. Sozinha e valente, sem medo de cobra ou da morte. Foi. Esqueceu sobre a cama seu cheiro de esperança e um corpo vazio.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

a casa

(byana)

Fica a casa. Inerte. Sem os sons de chinelos de antes, o silêncio reina pelos cômodos. Fecha as janelas e sobe as paredes, caminha lento pelos corredores, sem pressa, porque já não há mais onde chegar. A ausência ocupa o leito de dois que eram um, que eram tantos, conhecidos e estranhos. Não há mais as noites infinitas de dor e espera, os dias que arrastavam as pernas pararam, cessaram como as badaladas do relógio da sala, sem corda. Os ponteiros dormiram. As panelas calaram. O fogo apagou e a água da chaleira esfriou. Quais olhos agora zelarão pela estrada e o quintal? Quem trancará as portas antes de dormir, se tudo dorme? Não há mais entradas e saídas. O cachorro foi antes. Os porcos engordam sem os olhos do dono. Ficaram as galinhas ressabiadas. Os lagartos se aproximam dos ovos despejados sem cuidado e as flores que crescem desavergonhadas, agora, exalam de longe um ligeiro perfume de esquecimento...